Taí um tema que deixa os filósofos de "cabelos em pé" e que só a partir da segunda metade do século XX foi encarado de frente. Se for levada às últimas consequências, a questão do aborto remete ao centro do debate sobre o valor intrínseco da vida. Em 1971, Judith Jarvis Thomson publicou o ensaio "A Defense of Abortion" (Uma Defesa do Aborto), na revista Philosophy and Public Affairs (Vol. I), onde apresentou o experimento mental conhecido como "caso do violonista":
Thomson pedia para que o leitor se imaginasse na posição de uma pessoa de tipo sanguíneo raro que era sequestrada por uma fictícia "Sociedade dos Amantes da Música" (SAM) e ligada por aparelhos a um leito de hospital no qual um violinista virtuose jazia em coma. Os médicos garantiam que a pessoa sequestrada seria libertada nove meses depois, prazo necessário para que o tratamento recobrasse a consciência do músico. Além do incômodo de ficar ali por todo esse tempo, o doador não sofreria nenhum outro mal, tendo o consolo de estar ajudando a salvar a vida de um ser humano. A SAM cuidaria de todos os negócios do doador e ainda lhe garantiria uma boa recompensa no final.
A dúvida que Thomson lança ao leitor é se concordaria em passar nove meses de sua vida naquela condição ou desligaria a máquina e iria embora para casa, matando o violinista. Essa metáfora, aqui resumida, evidencia as situações de estupro, das gravidezes indesejada e de risco, quando a mulher precisa de assistência médica intensiva. Thomson, como a justiça brasileira, defende o aborto em caso de gravidez de risco, má formação do feto e gerada à força, condenando-o em outras circunstâncias.
Outro texto que se tornou clássico é Ética Prática (1993, 2ª ed.), de Peter Singer, onde a fronteira entre seres humanos conscientes, crianças, fetos, embriões e os outros animais são duramente criticadas. O argumento, em suma, é que se podemos matar outros seres sencientes irracionais, segundo as necessidades humanas, não há razão para impedir o aborto de fetos e embriões, sem cair num preconceito "especista" ou apelar para valores religiosos, pois os fetos humanos seriam tão (ou menos) racionais quanto os chimpanzés, por exemplo. E no caso dos embriões, sequer sentiriam dor.
A polêmica não pára por aí. Os geneticistas e as clínicas de fertilização enfrentam, hoje, o problema da utilização dos embriões excedentes armazenados. Pesquisas recentes afirmam já ser possível orientar o crescimento desses embriões para formação de tecidos de órgãos específicos do corpo. A clonagem terapêutica permitiria a realização de transplantes desses tecidos que poderiam salvar milhares de pessoas. Os cientistas defensores dessa idéia procuram encarar os embriões como um "pequeno monte de células agrupadas", mas isso é insuficiente. Afinal de contas, todos nós somos um "monte de células agrupadas" e o ponto não é saber qual a quantidade de células que merece viver.
Concordo com Singer que, fora argumentos religiosos, não há muita saída. Os niilistas consequentes, como Emile M. Cioran, sustentam que nada, incluindo a própria vida, possui valor por si mesmo. Na antiguidade helênica, os filósofos cirenáicos da corrente de Hegesias pregavam o suicídio como método de obter maior prazer - entendido por ausência de dor - e que o melhor mesmo era nem ter nascido. Mas já fui longe demais e não pretendo monopolizar ou fechar a questão. Essa é minha modesta contribuição para o seu debate. Espero que ela suscite novas respostas.