Lastimável, sob todos aspectos, a notícia que chega do falecimento, no dia 24 de novembro, do filósofo norte-americano John Rawls (1921-2002). Sem favor algum, Rawls é considerado o filósofo político mais importante do último quarto do século XX. Desde que a lançou, em 1971, sua obra monumental Uma Teoria da Justiça (TJ) esteve no centro de todas as discussões sérias contemporâneas sobre política. Tornou-se também um exemplo de filósofo incansável na defesa de suas teses. Nunca acomodou-se ou deixou sem respostas todas as críticas e sugestões levantadas contra sua teoria.
Já em 1975, tratou de apresentar uma segunda edição consideravelmente revisada da TJ, respondendo às críticas de Herbert L. A. Hart (1907-1992) e Brian Barry. Mas não parou por aí, depois de duas décadas de debates intensos, fez publicar Liberalismo Político (1993), reformulando em vários aspectos a argumentação central da TJ. Dessa vez, levava em conta o debate travado com os comunitarianos Michael Sandel e Alasdair MacIntyre. Novas objeções surgiram e mais uma série de artigos são lançados até que sai O Direito dos Povos, em 1999, onde o próprio Rawls pensava ter chegado ao ápice de suas reflexões acerca do convívio pacífico de pessoas e cidadãos razoáveis, num mundo justo. Ledo engano, menos de dois anos depois, aparece Justice as Fairness (Justiça como Equidade, 2001), com a última formulação do conceito chave de justiça trabalhado desde 1971. Tivesse a vida eterna, Rawls estaria sempre atento e disposto a rever e explicar melhor seus argumentos. Um modelo de filósofo contemporâneo engajado sinceramente no debate público voltado para o esclarecimento mútuo das idéias.
Impossível pensar a filosofia política contemporânea sem passar pelos sentidos de conceitos como "posição original" (original position), "equilíbrio reflexivo" (reflective equilibrium), "consenso sobreposto" (overlapping consensus), "doutrinas abrangentes" (comprehensive doctrines), "sociedade bem ordenada" (well-ordered society) e "justiça como equidade" (justice as fairness) postos por Rawls no cerne das questões mais relevantes da atualidade. Rawls nunca fugiu da discussão e, agora que sua viva voz não é mais audível, resta apenas buscar em seu legado as respostas para tantas dúvidas que só ele era capaz de despertar de maneira tão rica.
De Rawls, sempre continuará valendo o que Robert Nozick, um de seus primeiros críticos, disse em Anarquia, Estado e Utopia, no já distante 1974:
Mais uma vela que se apaga nesse mundo escuro assombrado por demônios...