Ao cruzar as margens dos rios Tigre e Eufrates, o exército de George W. Bush repete o gesto de Caio Júlio César (101-44 a.C.) na famosa travessia do Rubicão, lá pelos idos de 46 a.C., quando este pôs fim à República e instalou a ditadura em Roma. Tal como César, o atual presidente norte-americano reproduz, ainda que sem a mesma erudição, a passagem da tragédia Phenicianos, de Eurípedes (485-406 a.C.), que desde a juventude o ditador romano gostava de citar da seguinte forma:
"Há se violentar o direito, é para reinar que se deve o fazer. Fora disso, pratica-se a virtude".
A guerra entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Iraque, iniciada oficialmente dia 19 de março, inaugura uma nova fase nas relações internacionais, onde a Organização das Nações Unidas (ONU) desempenhará um papel fundamental, ao contrário do que muitos comentários precipitados vêm alardeando. Há muito que as fronteiras do falido estado-nação vêm se desgastando diante do fenômeno histórico da internacionalização das relações comerciais, financeiras, profissionais e pessoais, fomentado pelo incremento dos meios de transportes e comunicação. Os chamados interesses nacionais estão cada vez mais reduzidos aos interesses corporativos de grupos desejosos em preservar sua condição econômica, social e cultural, nos limites dos territórios em que foram formados. Por outro lado, os interesses pela hegemonia mundial, cujo vácuo vem sendo rapidamente ocupado pelos EUA desde a Queda do Muro de Berlim, em 1989, ameaçam atropelar os legítimos interesses de indivíduos que desejam manter a autonomia de suas escolhas, perante as opções que lhe são apresentadas, no sentido de melhor realizar seus planos de vida. Por certo, todos gostariam de ver preservados seus direitos em adotar esse ou aquele caminho possível, sem a proibição não justificada de quem quer que seja.
Enquanto o modelo do estado-nação europeu é abandonado por seus próprios fundadores, o modelo imperial romano volta assombrar o planeta numa escala sem precedentes, com as ações abruptas dos norte-americanos. Por conta disso, resta à ONU assumir de vez a função que o senado romano não teve forças para suportar, devido a seus estreitos horizontes. O cenário atual está extremamente tumultuado, como ocorre sempre nos ambientes em mudança, e um olhar detalhado sobre a situação se faz necessário para que não se sucumba a conclusões equivocadas e repentinas. Em 2002, o produto interno bruto (PIB) estadunidense alcançou cerca de 10 trilhões de dólares, maior do que duas vezes o PIB japonês e mais de 10 vezes o que o Brasil produziu em 12 meses. O que vale dizer que em um ano os EUA produziram o mesmo que o Japão leva para construir em dois anos e o Brasil em mais de uma década. A União Européia (UE), composta por 15 países, alcançou, em 1999, algo próximo de 8,5 trilhões de dólares. Assim tornou-se a UE a única economia homogênea capaz de discutir em pé de igualdade com o poderio norte-americano. Engana-se, portanto, quem acha ser possível isolar, agora, os EUA, ademais que a própria UE se mostrou dividida quanto ao apoio às medidas de força contra o Iraque. Os EUA são a principal economia mundial, responsável por 19 por cento das importações e exportações em todo mundo - quase 1,5 trilhão de dólares que sairam e entraram, respectivamente, em 2000, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Também não é possível pensar que a ONU seja completamente desmontada por causa desse episódio. Outras invasões foram deflagradas, desde 1950, sem que ninguém pedisse o seu aval. A antiga União Soviética invadiu a Hungria (1956), a ex-Tchecoslováquia (1968) e o Afeganistão (1979). Os EUA, por sua vez, já avançaram sobre o Vietnã (1961), Granada (1983) e o Panamá (1989). Ao passo que o próprio Iraque atacou o Irã (1980) e o Kuwait (1990). A primeira guerra efetivamente endossada pela ONU foi a Guerra do Golfo , em 1991, como resposta à invasão iraquiana do Kuwait. Depois disso, a fracassada intervenção estrangeira na Somália, em 1992, foi outra iniciativa armada direta autorizada pela ONU. Antes disso, a ONU limitava-se apenas ao envio de forças de paz, como a recente incursão no Timor Leste (1999). Ao lado de outras iniciativas na área de saúde, educação, desenvolvimento social e defesa dos direitos humanos, o acúmulo de tarefas provocou uma crise financeira na organização, agravada pelo atraso na contribuição de alguns países membros. Discutiu-se muito acerca da redução do quadro de funcionários e cortes de departamentos, para que a instituição se concentrasse na coordenação do processo de paz e no desenvolvimento das nações.
Quando a areia do deserto de Nefud baixar, o desenho de um novo mundo estará traçado. De um lado, os EUA e seus 30 aliados e, do outro, França, Alemanha, Rússia e aqueles que defendiam uma solução coordenada pela ONU para o problema do arsenal e do regime iraquiano. Fica cada vez mais claro que a manutenção do estado-nação é incompatível com a globalização. A Guerra EUA-Iraque representa a total demolição desse tipo de categorização. Os EUA são uma federação, cujo domínio político, econômico e cultural se estende além de suas fronteiras. O Iraque, com seus conflitos étnicos-religiosos internos, dificilmente enquadra-se nos moldes do estado-nação ocidental que foi imposto pela colonização européia ao resto do mundo. Definitivamente, a paisagem que surge por detrás da fumaça dos escombros de Bagdá é de um horizonte aberto, onde a separação entre o que é certo ou errado não pode ser traçada com um lápis sobre o mapa-múndi. Ou os governos deitam armas em torno de um organismo mundial com poder de sanção, ou se subjugam ao arbítrio do império norte-americano. É do interesse de todos, incluindo os EUA que tanto clamaram por uma resolução do Conselho de Segurança, que a ONU venha ocupar de vez o papel do Leviatã global, com força suficiente para intervir e punir qualquer grupo que viole o direito internacional. Pois, para que este seja digno do nome, é necessário que suas leis sejam soberanas e aptas a coibir aqueles que as burlem.
Evidente que tal transformação não se processará imediatamente, mas este deve ser o objetivo final, claro e distinto, da ONU. A transição gradual dos Estados nacionais europeus para a UE deve servir de exemplo. As sociedades historicamente engajadas no movimento emancipatório da humanidade, em torno da Declaração dos Direitos Humanos, devem iniciar o processo de integração política e econômica, a fim de equilibrar os diversos interesses e promover a justiça e a harmonia entre as culturas divergentes, sem que isso implique numa uniformização e padronização dos costumes. A utopia cosmopolita dos iluministas poderá, então, ser revisitada, ou acabaremos como no destino do império romano: numa nova idade média.
"(...) Eis um homem que quiz se fazer rei do povo romano e senhor do mundo, e que chegou ao fim. Dir-se-á que esta ambição é honesta? É preciso ter perdido o senso, pois que seria aprovar a extinção das leis e das liberdades públicas, e achar gloriosa a mais infame e a mais detestável opressão"
(CÍCERO, Dos Deveres, III, § XXI).