Os últimos acontecimentos no Oriente Médio resultam de uma longa série de conflitos intermitentes. Muito antes de Jesus de Nazaré (1-33) andar por lá, a "Terra Santa" já era palco de disputas econômicas, religiosas e políticas. Para entender um pouco os desdobramentos da luta entre árabes e israelenses pela Palestina, é preciso voltar ao início da história da humanidade. Especificamente, ao tempo da fundação de Jericó, a primeira cidade cercada por fosso e muro de pedras que se tem notícia, no VIII milênio antes de Cristo, ao norte do Mar Morto, no vale do rio Jordão.
Tell Es-Sultan -assim chamam os árabes o antigo vilarejo de Jericó- era um povoado de quase mil habitantes que ocupava uma área de no máximo 40 km². A região, situada entre o clima desértico (tropical árido) e mediterrâneo (subtropical), sofre escassez de chuvas e a média de precipitação anual gira em torno de 300 mm, no limite da produção agrícola. O local é passagem obrigatória de rotas comerciais terrestres entre a Ásia e a África.
Por volta do II milênio a.C., os semitas -notadamente, os hebreus, oriundos da Mesopotâmia- migraram para a Palestina, segundo a lenda, conduzidos pelo patriarca Abraão (cc. XIX a.C.), a quem Deus prometera a terra de Canaã. Abraão teria dois sucessores: Ismael, filho de sua escrava Hagar, e Isaac, de sua mulher Sara. Ismael, por ser ilegítimo, teria sido expulso com sua mãe do clã de Abraão e rumado para o deserto, onde ergueria uma "grande nação", origem dos povos árabes. Isaac, único herdeiro de Abraão, por sua vez, casou-se com Rebeca, gerando Jacó. Mais tarde, este passaria a ser chamado de Israel, "aquele que é forte contra Deus", pois lutaria com um anjo enviado por Deus e o venceria. De Israel, portanto, descenderiam os israelitas, povo eleito e seguidor direto do deus de Abraão.
No século 12 a.C., os filisteus, que não eram semitas, fixaram-se ao sul da Palestina, cujo nome deriva de "palaistina" ou "filistina". Fundaram cinco cidades, entre elas Gaza, e impuseram várias derrotas a Saul (cc. 1000 a.C.), que assumira a liderança dos hebreus e havia constituído seu primeiro reino. Logo em seguida, Davi (1000-961 a.C.), segundo rei dos hebreus, vence Golias, mitológico guerreio filisteu, provocando o declínio do poder da Filistina, que desapareceria sob a influência dos cananeus. Próximo a 933 a.C, os hebreus encontram-se divididos em dois reinos: Israel e Judá. Em 722 a.C, o primeiro é destruído pelo Império Assírio, enquanto o segundo cairia perante o rei da Babilônia, Nabucodonosor (cc. 605-563 a.C), que impôs o cativeiro aos judeus entre 587 e 538 a.C. Com a consequente destruição do primeiro templo de Jerusalém, começa a diáspora, ou "dispersão pelo mundo".
Desde então, a Judéia, passou por diversas mãos, sendo sucessivamente invadida por persas, egípcios, selêucidas, romanos, bizantinos, até os muçulmanos virem a tomá-la na Idade Média. As Cruzadas promovidas pelos cristãos medievos foram várias tentativas frustradas de trocar o comando sobre a Terra Santa, em seu favor. Entretanto, elas permitiram que os turcos otomanos, a partir de 1301, formassem o sólido império que se manteve na região de 1516 até 1916.
Depois que a Turquia se viu derrotada na I Guerra Mundial (1914-1917), por ter lutado ao lado dos alemães, foi forçada a reconhecer o acordo Sykes-Picot, entre Grã-Bretanha, França e Rússia, abrindo a Palestina ao comércio internacional e transferindo sua tutela para os britânicos. Estes também comprometeram-se a facilitar a formação de um Estado árabe-judaico naquele território, de acordo com o mandato de 1923 da Sociedade das Nações que atenderia os princípios da Declaração Balfour, "favorável à criação de uma pátria para o povo judeu, sem prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina".
Contudo, somente após o final da II Guerra Mundial (1939-1945), em consequência da terrível perseguição dos nazistas aos judeus, é que a recém formada Organização das Nações Unidas (ONU) finalmente decreta a fundação de Israel, numa extensão de 21 mil km², em 14 de maio de 1948. Ainda estava prevista a criação de um Estado árabe independente, numa área de 17 mil km², porém os árabes consideravam a Palestina sua e não concordaram com a partilha, atacando os judeus logo no primeiro dia de existência da pátria nacional judaica. Sem alternativa, os israelenses, melhor organizados, responderam aos ataques invadindo a faixa de Gaza, a metade ocidental da Cisjordânia e toda a Galiléia, territórios destinados aos palestinos. A Jordânia, por seu turno, anexou a outra metade da Cisjordânia, enquanto o Egito administrava o restante da faixa de Gaza, a partir de 1949. Vários conflitos árabe-israelenses alternaram-se, então: a Guerra de 1956, a Guerra dos Seis Dias (1967), Yom Kippur ("dia do perdão", em 1973), invasão do sul do Líbano (1982), Intifada ("ataque surpresa", 1987 e 2000); intermediados por acordos de paz, como os de Camp David (1978/79), Oslo (1993 e 1995) e novo Camp David (2000).
Atualmente, a disputa reveste-se de componentes estranhos ao conflito original, em torno da fundação de Israel e da Palestina. O envolvimento dos Estados Unidos e grupos terroristas alimentam uma indústria bélica, cujos interesses são contrários a uma solução pacífica. A produção de petróleo sempre é afetada quando há o acirramento dos ânimos, na área do Golfo Pérsico. O aumento do preço do barril favorece os países exportadores ao passo que provoca inflação nos importadores. Além disso, a escassez de água que já dura cerca de três anos, dificulta um consenso acerca da utilização dos recursos hídricos nos territórios palestinos.
A seca vem reduzindo a cada ano o nível do Mar Morto, abastecido pelo rio Jordão. Na vizinha Jordânia, os planos agora são extrair água do subsolo do deserto. Israel, que possui uma agricultura moderna, baseada na irrigação, está tendo de racionar o abastecimento do setor. Na década dos 90, o preço do barril de petróleo esteve no patamar entre 10 e 25 dólares e a descobertas de novas jazidas pelos importadores diminuíram a participação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) para 40% das vendas mundiais, quando era de 55% em 1973. A recessão global, ainda por cima, restringe a demanda por essa fonte energética, fazendo que sua valorização fique por conta apenas da tensão política no Oriente Médio.
Quanto ao terrorismo, a bem da verdade, historicamente, foi primeiro empregado na região por organizações sionitas, como a Irgun Zvai Leumi e o grupo Stern ("estrela"), que patrocinaram ações contra britânicos e árabes, na Inglaterra e na Palestina, entre 1946 e 1947. Yasser Arafat (1929), líder da Autoridade Nacional Palestina (ANP), ao ter formado o braço armado da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e apoiado a Intifada, nada mais fez do que repetir o método aplicado com sucesso pelo outro lado, no século passado. Todavia, o incitamento de Osama Bin Laden e sua Al Qaeda ("a base") aos EUA, no ataque de 11 de Setembro, provocou a ampliação do conflito além do Oriente Médio. O Afeganistão já foi destruído e novamente o Iraque é posto na alça de mira.
Convém lembrar que tanto Saddam Hussein (1937), com Bin Laden, já foram aliados dos norte-americanos entre os árabes. O primeiro contra os iranianos, na Guerra Irã-Iraque (1980-1988), que teve componentes de genocídio e uso de armas químicas e bacteriológicas, por parte do Iraque. O segundo contra os soviéticos, na invasão do Afeganistão por tropas da União Soviética (1979-1989). Agora, os interesses estadunidenses passam a ser na deflagração de novo ataque a Saddam Hussein, a quem acusa-se de estar financiando os terroristas árabes. Qualquer obstáculo posto a esse objetivo deverá ser removido pela diplomacia. Primeiro, rechaçando propostas de acordos pacíficos para destruição de armas químicas iraquianas - como a do embaixador brasileiro José Maurício Bustani, na Organização para Proscrição de Armas Químicas (OPAQ)-, depois neutralizando o próprio radicalismo israelense que tende a unir os árabes contra agressões externas a países islâmicos.
Tudo leva a crer que a linha dura do Likud, partido israelense de direita, deverá recuar momentaneamente, como já foi anunciado, ou até aceitar a formação do Estado Palestino Independente, para que a propaganda bélica contra o Iraque possa então recomeçar...
Triste sina da Terra Santa, triste deus esse que gera tanta discórdia "em nome do amor".